Pensando em Mabon

O equinócio de outono chega, e é nesse momento de equilíbrio que celebramos Mabon. Damos adeus ao calor do verão e caminhamos para a (bem-vinda e necessária) escuridão do inverno.

Quando pensamos nas religiões pagãs ocidentais, é comum as associarmos à transcendência — e, em contraste, as religiões “organizadas” têm como valor a imanência. — Tudo, então, em nossa prática sacerdotal, vai além: não é somente por nós, para nós, ou mesmo para quem temos contato direto — nosso caminho pavimenta a trilha com as pedras que servirão de apoio e guia para quem vier depois.

Assim, refletindo sobre Mabon e seu equilíbrio, sabendo que é uma jornada de decaimento (afinal, daqui a seis meses, em Ostara, teremos um novo equilíbrio rumo ao crescimento), penso em tudo o que se renova constantemente para nos manter como estamos… E nisso vejo o valor do sangue.

O sangue em nossas veias garante o equilíbrio do corpo — tanto é que qualquer desbalanceamento se torna muito perigoso — mas, assim como não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, com a troca constante de nosso sangue (novas hemácias sendo produzidas a todo tempo) é possível dizer que nosso coração não bombeia duas vezes o mesmo sangue.

Assim, que neste Mabon eu permita que até meu sangue transcenda, servindo a quem precisa mesmo não o conhecendo…

E, num ato que se tornou sagrado, esse sacrifício de sangue agora é capaz de salvar muitas outras vidas: uma vez mais fiz minha doação de sangue.

Cálices vazios

Quando desejamos reaprender algo ou tentar compreender algo sob a ótica de outra pessoa, temos de ver o que já temos em nosso cálice de conhecimento. Muitas vezes, o que carregamos é um cálice cheio, quase a transbordar, e isso impede que um novo conhecimento ali se instale, pois nossa certeza acerca do assunto se torna uma barreira.
E isso é parte da ilusão que nos apresenta o 7 de Copas, forçando-nos a escolher entre o que é real em meio a tudo aquilo.
E o que fazer? Jogar fora todo o conteúdo do cálice?
Sim. E não.
Você não tem como deixar de lado o que sabe, mas precisa abrir espaço para o que lhe será ensinado. E, assumindo que somos regados pelas águas da sabedoria, o que precisamos é entornar o cálice que carregamos aos nossos pés, para que aquela água molhe nosso solo. Teremos então um cálice vazio, que poderá ser enchido novamente, mas tudo o que sabíamos ainda nos alimentará ao longo do tempo, tornando-nos mais fortes.
Quando isso acontecer, ao termos novamente um cálice cheio, poderemos mesclar os dois conhecimentos, nos banhando nessas novas águas, unindo o que sabíamos com o que aprendemos. Mas o importante disso tudo foi que, durante o novo aprendizado, o novo saber pôde ser acumulado sem que nosso antigo conhecimento impedisse isso.

Tiragens improvisadas

Dados de TarotConsiderando o caos da evolução humana, e a sequência de acasos singelos que deu vida a tudo neste planeta, assim como o mero acaso de 1 entre 250 milhões de espermatozoides ter dado origem a mim.

É muito acaso junto. É muita coincidência.

E, em meio aos acasos da vida, uma coisa que pode surgir de vez em quando é aquela questão de um cliente que, via de regra, não se encaixa em tiragem padrão alguma.

Entenda como tiragem padrão toda tiragem que o tarólogo tem memorizada ou de fácil consulta, podendo se encaixar para os mais diversos assuntos. Não existe, porém, algo que seja genérico, e cabe a um bom profissional aplicar sua teoria ao caso concreto.

Mas o que fazer nesses casos incomuns? Simples: improvise uma tiragem.

Sério.

Afinal, o que é uma tiragem (ou mandala, ou qualquer outro nome bonitinho que você quiser usar)? Em termos bem simples (simples mesmo), é como se fosse uma frase com lacunas, que você pode preencher de acordo com critérios.

Vamos a um exemplo. Digamos que você tenha de preencher a seguinte frase:

  • (nome de um amigo) comprou (um objeto) quando tirou férias em (nome de cidade).

Você poderia dizer algumas destas frases:

  • João comprou um carro quando tirou férias em Paris.
  • Roberto comprou um ioiô quando tirou férias em Votuporanga.
  • Assis comprou um chapéu quando tirou férias em Sergipe.
  • …e assim por diante…

Como você pode ver, as possibilidades são virtualmente infinitas. É assim com o tarot.

Portanto, se você estiver diante de uma questão difícil de interpretar com as tiragens que conhece de cor, por que não usar algo improvisado, voltado especificamente para seu cliente e para a questão que ele traz a você? Contanto que você foque nas lacunas que determinou, é possível investigar qualquer assunto.

Esse é o método que uso quando diante de uma situação muito inusitada. Qual o seu?

Leituras com magia

SpellAcredito que você se lembra quando escrevi sobre a famigerada dúvida acerca de haver ou não uma maldição ou magia em efeito sobre o cliente e como maus profissionais exploram esse medo. Se não se lembra, dê uma olhada naquele artigo e depois continuaremos a conversar.

Pronto? Ótimo.

Numa conversa nesses últimos dias, uma amiga disse que chegou à conclusão de que minha opinião era que todo tarólogo que oferece uma alternativa mágica é uma fraude…

Calma lá! Não foi isso o que eu disse.

Explorar o medo de um cliente é uma coisa ruim. Prometer resolver algo que não tem solução é uma coisa ruim. Isso tudo gera um mau profissional.

Contudo, é preciso reconhecer o valor da ritualística e da magia! Ora, se não fosse assim eu não estaria trilhando um caminho mágico e não teria sido Iniciado em algumas Tradições… A questão é saber lidar com isso de maneira profissional.

Considere a seguinte alegoria:

Você vai a dois médicos e diz que tem dor nos rins.

  • O primeiro abaixa a cabeça, pega o receituário, anota o remédio que você precisa tomar, e encerra a consulta;
  • O segundo faz algumas perguntas acerca da dor, analisa onde está doendo, diagnostica de fato o que você tem, abaixa a cabeça, pega o receituário, anota o remédio que você precisa tomar, e encerra a consulta.

Qual dos dois médicos você prefere que lhe atenda?

Se você escolheu o segundo, então aplique isso às leituras de tarot também, oras! Se um cliente tem uma questão que precisa ser resolvida e eu percebo isso por meio da leitura, havendo algum tipo de magia que pode ser feita, eu faço a indicação. É impossível fazer um bom trabalho sem compreender a situação e, como tarólogo, minha ferramenta de trabalho é o tarot.

E aqui cabe um parênteses: quando falo magia, entenda isso em sentido amplo – pode ser um banho, um chá, um escalda-pés, uma vela, um verso, um amuleto ou patuá, ou mesmo uma mescla disso tudo. Até mesmo mudar o modo de encarar o mundo é uma postura mágica.

Além disso, se for seguir essa rota mágica, é preciso orientar o cliente sobre o que será feito. É direito do cliente (ele está pagando por isso!) saber a razão de determinado ingrediente num chá, ou o porquê de uma vela de certa cor, ou ainda o motivo de algo ser feito preferencialmente numa sexta-feira. Você não precisa esmiuçar os detalhes, mas é ético dizer o que envolve o investimento do cliente.

Uma vez uma cliente apareceu dizendo que queria uma magia para encontrar sua alma gêmea. Só queria isso, nada além. Eu disse que não poderia ajudá-la (Mas vocês, tarólogos, não ficam fazendo magia de amarração para todo mundo?). Expliquei que precisava estudar a questão por meio das lâminas antes de poder fazer qualquer uso de magia para ajudá-la.

A contragosto ela aceitou. Sabe qual era o problema? A cliente se autossabotava constantemente, o que impedia que qualquer relacionamento em que se envolvesse tivesse frutos.

Imagine se ela realizasse qualquer tipo de ritual para atrair o amor: simplesmente não daria certo depois de algum tempo por conta da constante autossabotagem.

Assim, o que fizemos foi empoderá-la para que ela passasse a tomar as rédeas da vida dela para seguir em frente, cortando laços de maneira consciente para que laços mais firmes pudessem surgir. Ao longo do processo, com o fim da autossabotagem, ela encontrou a pessoa com quem está até hoje.

Tarot e magia podem caminhar lado a lado. A questão é utilizá-los com ética e sabendo o que se faz.

E você, utiliza a magia em sua prática tarológica?

Aplicativos de tarot

AppUma rápida busca na internet vai lhe render milhares de horas navegando por páginas que prometem uma leitura de tarot online gratuita. Aplicativos e outros softwares existem aos montes para ler tarot para você.

E como eles funcionam? Basicamente, eles pedem que você se concentre na questão e, então, ao clicar, selecionam uma carta (ou mais) que trará sua resposta.

E de onde vem a resposta? De um banco de dados com traduções das cartas.

Eu digo traduções nesse caso porque não há uma interpretação. Não há uma análise da questão feita e uma vinculação dos significados dos Arcanos selecionados, resultando numa resposta verdadeira. Você faz uma pergunta, clica no link, vê uma carta e uma explicação dela. Apenas isso. Sem considerar o que foi perguntado.

Isso tem validade como leitura? Desse jeito, não.

Contudo, se houver uma pessoa real intermediando isso, não vejo problema. Deixe-me explicar.

Assumindo que a única coisa que é aproveitada dessas rotinas de sistema é a geração aleatória de uma sequência de cartas, isso tem o mesmo princípio de embaralhar e cortar o baralho de tarot. Assim, se um tarólogo usar esse mecanismo e realmente interpretar o resultado, é possível usar o aplicativo em questão.

Agora, se você vai querer consagrar seu smartphone da mesma maneira que você consagra um tarot, aí é com você. Não me atrevo a julgar o mérito disso.

O ponto principal é, sim, ter alguém interpretando o resultado. Máquinas podem realizar muitas tarefas, mas ainda não substituíram o insight humano e a compreensão das muitas facetas de uma personalidade buscadora. Eu mesmo já realizei tiragens importantes usando um aplicativo no meu smartphone quando não estava com um dos meus tarots à disposição, e não tenho ressalvas quanto a isso. Na prática, o aplicativo me mostrou as cartas e eu interpretei o resultado, ignorando as traduções de fábrica e até mesmo as tiragens-padrão que ele tem embutido.

E você, o que acha de aplicativos de tarot?