Bate-papo com o Fenestra Tarot

1. Quem é você?
10 de paus.
Sou aquele que nunca se cansa, que está sempre pronto para trabalhar um pouco mais, a dar mais de mim, por mais que isso pareça me desgastar. Confie em mim, pois vou aguentar… até desabar por ter ido longe demais.

2. Quais são seus pontos fortes?
Cavaleiro de espadas.
Falarei o que precisa ser dito, independente de isso ferir alguém. Você que se vire em lidar com filtros, pois eu não os terei.

3. Quais são os pontos que precisa melhorar?
2 de ouros.
Não sou muito hábil em lidar com várias coisas ao mesmo tempo. Foque em uma questão de cada vez, dando-me tempo para me reorganizar antes de passar para outra.

4. Que tipo de leituras prefere fazer?
X. A Roda da Fortuna.
Prefiro lidar com os ciclos, em mostrar o que o consulente tem feito (ou não) para lidar com os problemas recorrentes. Tudo é ação e reação, e é nisso que brilho.

5. Como você vai me desafiar?
4 de paus.
Você precisará de mais estrutura do que o normal para lidar comigo, em parte por eu querer sempre mais, e em parte por não ter limites no que falarei. Cabe a você dizer quando chega, quando o momento final aparece. Se depender de mim, você não terá a estrutura necessária para lidar com tudo isso. Desenvolva-a.

O caso de R.

Conversando com R., uma cliente, ela me disse que havia gostado tanto da maneira como eu havia trabalhado uma de suas questões que queria compartilhar isso com os demais. Assim, com sua permissão, apresento aqui a interpretação de uma tiragem que fiz para ela, da maneira como me lembro — a imagem que ilustra esta postagem foi tirada no momento da leitura.

R. sempre quis ser uma escritora, algo que nunca aconteceu porque todos à sua volta lhe diziam que essa não era uma carreira que poderia prover seu sustento, devendo ser, no máximo, um hobby em sua vida. De tanto ouvir isso, acreditou que era verdade, guardando o desejo lá no fundo de seu coração, enterrado por baixo de outras coisas.

Isso, consequentemente, fez com que se sentisse perdendo sua criatividade até que, recentemente, ela se permitiu voltar a trilhar o caminho da escrita. Contudo, todos os anos de repressão do desejo ainda machucavam. Some-se a isso o fato de ter perdido o pai aos 20 anos, depois de 7 anos de luta contra uma doença grave.

Era como se sua criança interior ainda carregasse essas cicatrizes do não e do isso não vai dar certo. Ela queria curar isso.

Assim, escolhi uma tiragem muito específica para esse caso, uma que lida com nossa criança interior mesmo. São quatro cartas:

1. Quem é sua criança interior?
2. Como ela está agindo e lhe causando problemas?
3. Qual área da sua vida melhorará se você deixar que sua criança interior brinque ali?
4. Como curar seu relacionamento pessoal com sua criança interior?

Assim, usando o Barbieri Tarot, fiz a leitura.

1. Quem é sua criança interior?
8 de espadas:
alguém em vermelho espreita, à frente uma jovem segura um punhal.
A criança interior de R. é alguém que permite que seus medos a prendam, chegando ao ponto de considerar não agir para não deixar que fatores externos interfiram com seus desejos (se não criar expectativas, não ficará desapontada). Vejo isso como um reflexo do fato de R. ter precisado crescer logo, sozinha, uma vez que seu pai cruzou o véu que leva ao Outro Mundo quando ela ainda era jovem.

2. Como ela está agindo e lhe causando problemas?
6 de copas:
uma garota segura uma ampulheta, um dragão pode ser visto ao fundo.
A criança interior de R. age ao fazê-la se lembrar dos tempos de outrora, forçando-a a encarar o passado com uma nostalgia inocente. De certa maneira, essa viagem ao passado está carregada de culpa, como se ela acreditasse que poderia ter feito algo de diferente em sua vida (como começar uma carreira de escritora bem mais cedo). Contudo, a questão é que todas as experiências de R. a fizeram ser quem é hoje — mudar uma única linha do passado mudaria sua essência atual, e isso nem sempre é para algo melhor. — Assim, que R. sim revisite seu passado, mas que o deixe ali, onde é o seu lugar.

3. Qual área da sua vida melhorará se você deixar que sua criança interior brinque ali?
8 de copas:
uma jovem se abraça, com um ser mascarado e de chifres ao fundo.
É preciso que R. deixe sua criança interior livre, sem que R. fique presa a ela. É preciso deixar os grilhões de outrora para trás e permitir uma reaproximação no presente. E é evidente que essa carta dá seguimento ao que vimos nas duas cartas anteriores, o que reforça a ideia de deixar a criança fazer o que ela desejar. E, se tudo o que a criança interior deseja é reencontrar o passado, que ela faça isso, deixando R. livre para viver o presente.

4. Como curar seu relacionamento pessoal com sua criança interior?
Rei de ouros:
um homem maduro segura um arco e viaja com o sol às suas costas — há uma pitada de Apolo aqui.
É preciso que R. seja madura, que tenha os pés no chão. R. precisa ser a força por trás daquilo que dá base à sua vida. Quando ela se tornar mestra de si mesma, reinando de verdade sobre sua vida, será capaz de curar o relacionamento com sua criança interior. Ou seja, a criança interior precisa de alguém que cuide das coisas de adulto para que ela possa se comportar mesmo como criança. Então, que R. seja essa pessoa. Que tenha em mãos as rédeas de sua vida, traçando o próprio destino.
R., em verdade, precisa ser a Deusa que sempre deveria ter sido em sua vida.

Ao somarmos todas as cartas, fazendo uma redução tarológica, chegamos ao número 22, que corresponde, nesse caso, a’O Louco, o Arcano sem número. Assim, como último conselho, digo a R. que ela deve permitir que O Louco segure sua mão e lhe mostre que não há nada pré-definido em sua vida, estando ela livre para fazer de seu destino aquilo que bem desejar, não se prendendo aos julgamentos que ouviu desde pequena.

Ela tem lágrimas nos olhos e um sorriso sincero nos lábios. R. me agradece pela interpretação e diz que agora sabe como lidar com a jovem R. que se perdeu em um mar de nãos no passado.

Barbieri Tarot

Paolo Barbieri é um mestre ilustrador italiano cujo trabalho conheci na literatura fantástica, abrilhantando diversas capas de livros. Ao saber da existência de um tarot ilustrado por ele, achei que seria uma boa inclusão em minha coleção.

Contudo, esse não é um tarot cujas imagens foram criadas especificamente para esse fim. Como um tarot artístico, ele tenta encaixar o trabalho pré-existente de Barbieri nos Arcanos, às vezes forçando a mão ao fazer isso. Isso, consequentemente, afasta parte do simbolismo tradicional das cartas e, confesso, às vezes me sinto como se interpretasse um Tarot de Marselha, tendo de atribuir o significado ao número e ao elemento do Arcano Menor ao invés de me fiar apenas na imagem arquetípica da carta.

E é esse o ponto: por mais belas que sejam as cartas, elas não têm a essência do arquétipo nelas, o simbolismo tradicional. Some-se a isso o fato de que boa parte das cartas são apenas representações de uma pessoa estática, e não parte de uma cena, e aí temos um tarot visualmente lindo mas que pode trazer dificuldades quando interpretado por um neófito.

Mas, apesar do que eu disse anteriormente sobre como me sinto ao interpretá-lo, ele segue a tradição de Rider-Waite-Smith, e possui o verso reversível (contendo a imagem usada no Arcano X. A Roda da Fortuna). Ainda assim, não existe uma correlação direta entre a imagética usual e a escolhida, muitas vezes faltando elementos tradicionalmente essenciais nas cartas. Vejam vocês algumas das minhas escolhas para que compreendam isso (foto delas ilustra esta postagem):

III. A Imperatriz: Uma guerreira com uma lança olha para a esquerda, lado tradicionalmente associado ao passado. Foi-se aí a imagem esperada de uma mulher grávida, colocando ativamente nas mãos da Imperatriz a força para criar através do conflito.

XI. A Força: Se você não tem acesso ao livreto, e não dá uma olhada na imagem do Arcano VIII, pode muito bem pensar que essa imagem se refere à Justiça. É um retrato muito bonito, usado como capa de um dos livros das Crônicas do Mundo Emerso, mas não remonta nem à Força nem à Justiça. Talvez a personagem lembre as características d’A Força, mas como não li ainda os livros de Licia Troisi, não tenho como fazer juízo de valor — e, mesmo que remetesse, esperar que o tarólogo tenha afinidade com a ficção é algo complicado.

2 de Ouros: Diante de um portão semi-aberto, iluminado, uma guerreira traz uma espada aos ombros. Sinto falta daquela sensação de ter de lidar com várias coisas ao mesmo tempo, tradicional nesse Arcano. Aqui existe até um ar de serenidade, de espera.

4 de Paus: Um homem parece pensativo, olhando para o vazio. Parece-me mais uma representação de uma estátua clássica, por conta da pose, do que outra coisa. Novamente é uma imagem belíssima, mas foge ao que estamos acostumados a ver num tarot RWS.

7 de Espadas: Uma figura feminina envolta em tentáculos, evoca o prazer na situação em que está envolvida. Talvez, com certa boa vontade, seja possível ver a fuga da responsabilidade e a busca pelo caminho mais fácil nessa imagem, mas não é o que a primeira impressão causa.

8 de Paus: Uma criatura com torso de mulher e parte inferior do corpo de aranha segue resoluta. Falta-me visão para entender aqui onde está a rapidez das ações e da conclusão imediata esperada. É uma carta muito bonita, mas obriga o tarólogo a buscar a interpretação fora da imagem.

Recomendado para quem:
-gosta de tarots artísticos
-não se preocupa com associar a imagem de uma carta diretamente ao seu significado
-quer algo mais belo do que funcional

Não recomendado para quem:
-deseja um tarot com imagens de inspiração tradicional
-está começando a estudar o tarot
-prefere uma associação direta entre a imagem e o simbolismo de cada Arcano

Barbieri Tarot
Criado por Paolo Barbieri
Publicado por Lo Scarabeo, 2015
VIII Justiça, XI Força

Bate-papo com o Barbieri Tarot

1. Quem é você?
X. A Roda da Fortuna.
Sou aquele que traz a mudança, que lembra que dias melhores sucederão os ruins, mas que o ciclo inevitável segue a ponto de trazer as dificuldades novamente. Não sou inconstante, mas tenho orgulho do meu próprio caos.

2. Quais são seus pontos fortes?
9 de ouros.
Luxo, riqueza, deleite. Lido com todas essas coisas de uma maneira bem clara, não me escondendo atrás de uma pretensa humildade.

3. Quais são os pontos que precisa melhorar?
3 de ouros.
Meu caminho é singular e tenho dificuldade em trabalhar em equipe. Isso inclui você, como tarólogo. Entenda que provavelmente entraremos em conflitos que precisarão de tempo para resolvermos.

4. Que tipo de leituras prefere fazer?
9 de copas.
Gosto de trazer a felicidade a quem busca meu auxílio. Quero despertar a emoção, fazer surgir o sorriso, quero que a pessoa que vem a mim se sinta contente com o resultado.

5. Como você vai me desafiar?
XIV. A Temperança.
Como vamos equilibrar as coisas? Você precisa me decifrar, e sabe que não farei dessa uma tarefa fácil, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o consulente diante de você. Onde está seu equilíbrio? Sua justa medida? Testar esse limite será deveras interessante.