O caso de R.

Conversando com R., uma cliente, ela me disse que havia gostado tanto da maneira como eu havia trabalhado uma de suas questões que queria compartilhar isso com os demais. Assim, com sua permissão, apresento aqui a interpretação de uma tiragem que fiz para ela, da maneira como me lembro — a imagem que ilustra esta postagem foi tirada no momento da leitura.

R. sempre quis ser uma escritora, algo que nunca aconteceu porque todos à sua volta lhe diziam que essa não era uma carreira que poderia prover seu sustento, devendo ser, no máximo, um hobby em sua vida. De tanto ouvir isso, acreditou que era verdade, guardando o desejo lá no fundo de seu coração, enterrado por baixo de outras coisas.

Isso, consequentemente, fez com que se sentisse perdendo sua criatividade até que, recentemente, ela se permitiu voltar a trilhar o caminho da escrita. Contudo, todos os anos de repressão do desejo ainda machucavam. Some-se a isso o fato de ter perdido o pai aos 20 anos, depois de 7 anos de luta contra uma doença grave.

Era como se sua criança interior ainda carregasse essas cicatrizes do não e do isso não vai dar certo. Ela queria curar isso.

Assim, escolhi uma tiragem muito específica para esse caso, uma que lida com nossa criança interior mesmo. São quatro cartas:

1. Quem é sua criança interior?
2. Como ela está agindo e lhe causando problemas?
3. Qual área da sua vida melhorará se você deixar que sua criança interior brinque ali?
4. Como curar seu relacionamento pessoal com sua criança interior?

Assim, usando o Barbieri Tarot, fiz a leitura.

1. Quem é sua criança interior?
8 de espadas:
alguém em vermelho espreita, à frente uma jovem segura um punhal.
A criança interior de R. é alguém que permite que seus medos a prendam, chegando ao ponto de considerar não agir para não deixar que fatores externos interfiram com seus desejos (se não criar expectativas, não ficará desapontada). Vejo isso como um reflexo do fato de R. ter precisado crescer logo, sozinha, uma vez que seu pai cruzou o véu que leva ao Outro Mundo quando ela ainda era jovem.

2. Como ela está agindo e lhe causando problemas?
6 de copas:
uma garota segura uma ampulheta, um dragão pode ser visto ao fundo.
A criança interior de R. age ao fazê-la se lembrar dos tempos de outrora, forçando-a a encarar o passado com uma nostalgia inocente. De certa maneira, essa viagem ao passado está carregada de culpa, como se ela acreditasse que poderia ter feito algo de diferente em sua vida (como começar uma carreira de escritora bem mais cedo). Contudo, a questão é que todas as experiências de R. a fizeram ser quem é hoje — mudar uma única linha do passado mudaria sua essência atual, e isso nem sempre é para algo melhor. — Assim, que R. sim revisite seu passado, mas que o deixe ali, onde é o seu lugar.

3. Qual área da sua vida melhorará se você deixar que sua criança interior brinque ali?
8 de copas:
uma jovem se abraça, com um ser mascarado e de chifres ao fundo.
É preciso que R. deixe sua criança interior livre, sem que R. fique presa a ela. É preciso deixar os grilhões de outrora para trás e permitir uma reaproximação no presente. E é evidente que essa carta dá seguimento ao que vimos nas duas cartas anteriores, o que reforça a ideia de deixar a criança fazer o que ela desejar. E, se tudo o que a criança interior deseja é reencontrar o passado, que ela faça isso, deixando R. livre para viver o presente.

4. Como curar seu relacionamento pessoal com sua criança interior?
Rei de ouros:
um homem maduro segura um arco e viaja com o sol às suas costas — há uma pitada de Apolo aqui.
É preciso que R. seja madura, que tenha os pés no chão. R. precisa ser a força por trás daquilo que dá base à sua vida. Quando ela se tornar mestra de si mesma, reinando de verdade sobre sua vida, será capaz de curar o relacionamento com sua criança interior. Ou seja, a criança interior precisa de alguém que cuide das coisas de adulto para que ela possa se comportar mesmo como criança. Então, que R. seja essa pessoa. Que tenha em mãos as rédeas de sua vida, traçando o próprio destino.
R., em verdade, precisa ser a Deusa que sempre deveria ter sido em sua vida.

Ao somarmos todas as cartas, fazendo uma redução tarológica, chegamos ao número 22, que corresponde, nesse caso, a’O Louco, o Arcano sem número. Assim, como último conselho, digo a R. que ela deve permitir que O Louco segure sua mão e lhe mostre que não há nada pré-definido em sua vida, estando ela livre para fazer de seu destino aquilo que bem desejar, não se prendendo aos julgamentos que ouviu desde pequena.

Ela tem lágrimas nos olhos e um sorriso sincero nos lábios. R. me agradece pela interpretação e diz que agora sabe como lidar com a jovem R. que se perdeu em um mar de nãos no passado.

The Chronicles of Destiny Fortune Cards

20160520_200545Quando li acerca de The Chronicles of Destiny Fortune Cards fiquei extasiado. Como oraculista e escritor, a ideia de usar a essência das histórias – em outras palavras: o Monomito, ou a Jornada do Herói – me pareceu tentador demais. Contudo, mesmo tendo sido lançado em 2014 pela Schiffer Publishing, só recentemente ele chegou às minhas mãos.

A caixa é como a de um livro, e possui um bom espaço para guardar as 60 cartas e um belo livreto explicativo com 176 páginas coloridas. Mas, enquanto eu me deliciava com as imagens das lâminas, tive um revés: uma das cartas veio duplicada, mas outra estava faltando.

De pronto enviei uma mensagem para a editora, que imediatamente se prontificou a enviar uma substituta. Isso foi algumas semanas atrás…

…e hoje ela chegou. Tenho muito que recomendar o atendimento ao cliente da Schiffer Publishing por conta disso.

Diferentemente de um tarot, oráculos possuem significados próprios para suas lâminas – enquanto todo 7 de Paus é um 7 de Paus em qualquer tarot, aqui os símbolos são outros… E que símbolos!

As cartas possuem imagens fotomanipuladas, no estilo do Dark Fairytale Tarot, e minha primeira impressão é que os dois poderiam se complementar muito bem. Diferentemente daquele, nenhum ícone pop foi usado como modelo, então a imersão é bem maior.

Ainda estou degustando esse oráculo, precisando recorrer ao livro com frequência. Porém, vislumbro que isso mudará logo, pois é bastante intuitivo: a imagem das cartas evocam mesmo aquilo que querem dizer.

Falando das cartas, o verso não é reversível (e as próprias autoras – Josephine e Emily Ellershaw – dizem que não são feitas para serem lidas com outro significado que não o apontado), mostrando a face de uma mulher ladeada por dragões, como uma espécie de medusa divina, com uma lua cheia acima e uma escada abaixo. A imagem é serena e evoca um sentimento de reverência.

Já a frente das lâminas apresenta a imagem ocupando quase toda a carta, possuindo uma fina borda preta e o título da carta na parte de baixo, junto com seu número.

As cartas, seguindo a progressão numérica, contam uma história. Ter familiaridade com essa narrativa ajuda bastante a interpretar seus significados, e isso vai demandar mais de uma leitura. Felizmente o livreto é claro e a história, por mais que contenha os clichês do Monomito, é contada de uma maneira bastante singular.

Outro fato interessante acerca desse oráculo é a presença de cartas representativas do próprio buscador (ou consulente). Existem cartas de Herói e Heroína, e suas variantes – Herói 2 e Heroína 2. – As instruções são bastante claras ao afirmar que um Herói representa o buscador, se ele se identificar com o sexo masculino, ou um interesse romântico de uma buscadora que se identifique com o sexo feminino (e vice-versa). Já quanto ao Herói 2 (e isso se aplica à Heroína 2), o livreto indica que ele pode ser usado em substituição ao Herói, mas sinto-o de maneira diferente: ele indica a Sombra do Herói (ou um interesse romântico de um buscador que se identifique com o sexo masculino e seja homossexual). Mas essa é apenas minha interpretação. – ainda assim, é interessante ver como esse oráculo interpreta a figura do Significante (que seria a carta de tarot que identifica o próprio consulente).

Algumas das cartas que me chamam a atenção:

9. Accepting the quest: uma mulher empunhando uma espada, pronta para encarar seu desafio.
10. The Adventure: uma mulher, de costas para o observador, prestes a atravessar um portal; ela parece diminuta perto dos livros que a cercam.
29. The Gatekeeper: uma mulher está diante de um arco em forma de fechadura, como se esperasse pelo observador.
39. Resolve: um homem, em pé, diante de uma fogueira, empunha uma espada.
42. Victory: o mesmo homem tem sua espada imbuída com um poder flamejante e se porta como se acabasse de desferir o golpe final.
54. Mastery: uma mulher, em meio a folhas e chamas, encara o observador como se pudesse ver através de sua essência primal.

Realmente é um oráculo maravilhoso, mas que pode ter imagens mais escuras do que o esperado… As histórias que conta, eu lhes digo, não são as dos contos de fadas, mas as nossas próprias narrativas.

Recomendado para quem:
-gosta de histórias
-gosta de imagens fotomanipuladas
-está disposto a compreender um sistema de significados diferentes

Não recomendado para quem:
-prefere o tradicionalismo dos outros oráculos
-gosta mais de desenhos do que fotos
-busca algo pautado por alguma tradição histórica ou iniciática

Post-scriptum: o pingente de chave que vocês veem na foto foi adquirido durante a última Convenção de Bruxas e Magos de Paranapiacaba, das mãos de Graça e Martinho Escultura em Joia – foi paixão à primeira vista, e faz de mim também um Gatekeeper (veja a imagem da carta e entenda o que quero dizer) – recomendo muito o trabalho deles.

Bate-papo com The Chronicles of Destiny Fortune Cards

20160520_1910281. Quem é você?
57. Lady Autumn.
Sou aquele que lhe trará a prosperidade da colheita, a abundância que busca, mostrando que aquilo que faz lhe renderá frutos.

2. Quais são seus pontos fortes?
15. The Lighthouse.
Sou um oráculo que lhe avisará dos perigos adiante, dando-lhe o aviso necessário para que não se perca em meio a tempestades. Não se surpreenda se, quando sentir que precisa fazer uma consulta extemporânea comigo, eu lhe mostre que está num caminho tortuoso.

3. Quais são os pontos que precisa melhorar?
27. Word on Wing.
Às vezes, ao narrar minha história, usarei figuras de linguagem e símbolos que não serão tão explícitos. Eu lhe direi o que quer saber, mas precisará entender minhas palavras.

4. Que tipo de leituras prefere fazer?
3. The Hero.
Sobre você mesmo. Quero lhe mostrar o que há em você e como essa história se desenrolará. Quer mesmo chegar ao final dela?

5. Como você vai me desafiar?
5. Dreams.
Eu lhe mostrarei as possibilidades, farei com que suas aspirações e ambições estejam ao alcance das suas mãos… mas precisará fazer algo para chegar a elas. Toda vez que eu lhe disser que seu sonho pode ser realizado, seu maior desafio será vencer a si mesmo para ir ao encontro dele.